É bem certo que começámos por falar e, só posteriormente, nos dedicámos a desenvolver a escrita. No que diz respeito aos contos e às histórias em geral, tenho uma particular preferência por que mos contem, sou mesmo uma entusiasta admiradora dos contadores de histórias! A arte que não é preciso ter para contar uma história, captar toda a atenção do público e mantê-lo preso apenas à voz, nada mais do que à voz e, ainda assim, encantar uma audiência, seja ela numerosa ou reduzida...
Selecionei o conto que pode ser ouvido na mensagem anterior pelas razões que aí deixei indicadas e porque considero que a edição usada merece ser divulgada, conhecida e admirada.
A imagem desta obra foi publicada em telhadogato.blogspot.com e a opção pela mesma nesta publicação, e não outra apenas com a capa do livro, prende-se com a evidente ligação à natureza, às plantas...
Uma vez que o texto usado é demasiado extenso para ser aqui publicado na totalidade sob a forma escrita, fica uma versão truncada, cortada, como forma de estimular a curiosidade para a leitura integral da obra e dos seus mais de 200 contos (que, calma, podem ser lidos ao ritmo que desejarmos, o tempo está aí para ser usado na leitura e pode medir-se em minutos, dias, semanas, meses, anos!!).
A beterraba (versão escrita!)
"Era uma vez dois irmãos que serviam como soldados, e um era rico e o outro era pobre. Depois, o irmão pobre, querendo sair da penúria, despiu a farda de soldado e tornou-se lavrador. Cavou e trabalhou a terra no seu pequeno terreno e semeou sementes de beterraba. A semente germinou e deu uma beterraba que era grande e forte, e foi ficando cada vez maior, e não parava de crescer (...) o camponês não sabia o que fazer com a beterraba, nem se ela seria a sua fortuna ou a sua desgraça. (...) meteu-a na carroça, atrelou dois bois, levou-a ao palácio e ofereceu-a ao rei. "Mas que coisa estranha é esta?", perguntou o rei. "Já vi coisas estranhas, mas nunca tinha visto um monstro destes! De que semente germinou? Ou será que és um felizardo e só acontece contigo?" "Ai, não", respondeu o camponês, "não sou felizardo nenhum. Sou um pobre soldado que, não conseguindo o seu sustento, pendurou a farda de soldado e passou a dedicar-se à agricultura. (...) O rei teve pena dele e disse: "Deixarás de ser pobre (...) Ofereceu-lhe então uma quantidade de ouro, terras, campos e rebanhos e tornou-o imensamente rico, e a riqueza do outro irmão nem era comparável à dele. Ouvindo dizer o quanto o irmão conseguira com uma só beterraba, o outro encheu-se de inveja e pôs-se a matutar como poderia fazer para também ter uma sorte daquelas. Mas resolveu ser muito mais esperto. Arranjou ouro e cavalos e levou-os ao rei, julgando que este lhe daria em troca um presente muito maior, pois, se o irmão recebera tanto por uma beterraba, o quanto não receberia ele por aquelas coisas tão bonitas. O rei recebeu o presente e disse que não tinha para lhe dar em troca nada de melhor nem mais raro do que a grande beterraba. E assim o rico teve de mandar colocar a beterraba numa carroça e levá-la para casa. Em casa, não sabia sobre quem descarregar a raiva e a fúria, até que lhe ocorreram pensamentos malvados e decidiu matar o irmão. Contratou assassinos (...) foi ter com o irmão e disse: "Querido irmão, sei de um tesouro escondido. Vamos escavá-lo juntos e dividi-lo." (...) quando saíram, os assassinos precipitaram-se sobre ele, amarraram-no e prepararam-se para o enforcar numa árvore. (...) ouviu-se ao longe uma grande cantoria e um tropel de cavalos (...) Enfiaram à pressa o prisioneiro no saco, penduraram-no num ramo e desataram a fugir. (...) Ora quem se aproximava era um estudante em viagem (...) Quando o outro lá em cima reparou que ia a passar alguém lá em baixo, gritou: "Bons dias! Apareceste em boa hora!" O estudante olhou para todos os lados e não percebeu de onde vinha a voz, dizendo por fim: "Quem me chama?" E ele respondeu (...) "Levanta os olhos. Estou sentado cá em cima, no saco da sabedoria. (...) Comparadas com o saco, as escolas são todas uma grande piada. daqui apouco terei aprendido tudo. Nessa altura desço daqui e serei o mais sábio dos homens. (...) O estudante, ao ouvir aquilo tudo, ficou muito surpreendido e disse: "Bendita seja a hora em que te encontrei. Será que também não posso ir um pouco para dentro do saco?" O outro lá em cima respondeu (...) deixo-te entrar um bocadinho, mas vais ter de esperar uma hora, que ainda me falta uma coisa para aprender." (...) o estudante (...) começou a ficar impaciente e pediu ao outro que o deixasse entrar de imediato, tão grande era a sua sede de sabedoria. Então o outro fez como se estivesse a ceder e disse: "Para eu poder sair do saco da sabedoria, tens de o fazer descer pela corda e poderás depois entrar." Então o estudante fê-lo descer, desamarrou o saco e libertou-o (...) E fez menção de entrar logo no saco. "Para!", exclamou o outro. "Isto assim não vai." Pegou-lhe pela cabeça e enfiou-o de cabeça para baixo dentro do saco, atou-o e puxou a corda, alçando o jovem pela árvore acima no saco da sabedoria. Depois fê-lo balouçar no ar e disse: "Como vai isso aí, meu caro? Olha, já deves estar a sentir a sabedoria a chegar e a ter uma boa experiência. Fica aí sentadinho muito quietinho até ficares mais esperto." E dito isto, montou o cavalo do estudante e foi-se embora, mas passada uma hora enviou alguém para o tirar de lá de cima."
Vitória, vitória, assim acaba a história...
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